Reflexões

Bâtv e o desejo

        “Eu não consigo viver sem você”

Todos nós já nos deparamos com uma dor em comum. Uma espécie de castigo que nos rasga de dentro para fora, num grito mudo de desespero que nos faz poetizar a morte lenta, fria e escura.

        Nosso espírito marrento, difícil de dobrar, insiste em nos fazer sentir estranhas sensações que, ao contrário do que conscientemente não se diz, inconscientemente, mergulhamos prazerosamente.

        De imediato, olhamos para o amor como uma excrecência; algo não muito natural e, ficamos felizes apenas com as paixões calorosas, com as promessas vazias de amor submergido no presente e, que ali morrerá, assim que partirmos.

        Mas, quando vamos crescendo, as vezes mais por fora, do que por dentro; temos desejos por sabores diferentes e, uma novidade intensifica todas as coisas que outrora desviamos: Queremos algo e não sabemos o que.

        Não sabemos o cheiro que tem. Não sabemos o gosto que tem. Não sabemos como é a textura, a cor, o tamanho, o peso… apenas queremos. E queremos com uma vontade que jamais havíamos tido.

        O espevitamento do nosso espírito adulto com mente infantil, deixa nossa casa emocional de pernas para o ar.

        Sorrateiramente, como nos tornamos, vamos espiar coisas que ainda não experimentamos, para ver se conseguimos descobrir o que de fato estamos procurando.

        Não é uma busca simples e aos poucos nos interpretamos como desvairados. Afinal, somente uma absurda loucura, poderia nos colocar num caminho em busca de algo que não sabemos o que seja.

        Essa nova ideia que implantamos bem fundo, em nossa mente, se torna o arrimo para os dias seguintes. E então, com uma sensação se sabedoria alcançada; prosseguimos, cegos e inocentes do perigo iminente.

        Afazeres tornam-se nossas sentinelas. Sempre nos ajudando desviar de um súbito e frequente desejo que nos visita sempre que estamos de mentes vazias.

        Já diria nossos avós: “Mente vazia é oficina do diabo! ”.

        Mas, quão maligno é esse tal diabo que visita nossas mentes vazias? As vezes dá a impressão que seja uma atalaia de um nobre sentimento que, a vulgaridade de nossa atual vida fluída, parece querer diluir.

        Perigoso sentimento. Silencioso chega, sob luas diferentes, temperaturas diferentes e parece nos atacar na fresta de nossa carapaça; bem ali, onde é nosso ponto fraco e onde está exposto nosso coração.

        Nos sonhos, nos açoitam. Às vezes, olhando as redes sociais, ao depararmos com algumas imagens, somos, então, fustigados.

        Nossa infantil mania de pesar nossa felicidade, comparando com a do outro, nos espancam.

        Quanto mais tentemos ignorar que, talvez, lá no fundo saibamos sim o que queremos; mais seremos afligidos, oprimidos, mortificados… torturados.

        Então, o erro!

        Por um instante, permitimos que qualquer desejo iminente, decida nosso futuro. Às vezes, sexual, outras vezes, apenas o desejo de não ficarmos sozinhos: Maculamos nossa verdadeira intenção e entregamo-nos.

        Um rosto bonito, um perfume familiar, um beijo macio; um carinho no momento da carência… oportunidade indispensável para os caçadores de prazeres.

        É assim que fazemos as escolhas erradas, em nome de um desejo que não controlamos e, mesmo que fosse um erro, tal como as paixões de nossa infância que durasse pouco; ainda assim, seria perigoso e nos machucaria, mas não, não é um erro de curto prazo. Escandalosamente entregamo-nos com o intento de que seja para sempre e enfeitamos o feio para que combine com nosso desejo.

        Não cabe em nossas mãos; refazemos a costura.

        Não é da cor que gostamos; jogamos uma tinta extra. Uma demão, talvez duas e tudo fica mascaradamente perfeito.

Para variar, presenteamos com o perfume que gostamos; até para facilitar na hora de encontrar o cheiro que estamos procurando.

E assim, nos iludimos. Chamamos o desejo de amor e apostamos nossas vidas nisso.

Não a perdemos, me refiro as nossas vidas; não há motivo algum para que eu seja oportunista para usar da dor, em nome de palavras que te façam mais rapidamente sentir. Mas, perdemos uma coisa igualmente importante, ou ao menos é isso que vamos, mais tarde, reclamar: Perdemos nosso tempo.

Já no começo, percebemos que há algo de errado em apostar a vida no desejo: Ele nos parece confuso e sempre querendo mais.

O problema é que as pessoas não são ilimitadas no que nos podem ofertar. Todo mundo tem seus limites e, quando alcançamos essa margem, nosso desejo nos impele a querer mais; entretanto, não há mais o que obter e tudo desmorona.

Nosso orgulho parece uma atacã; nos amarra num laço firme e não nos deixa aceitar que não podemos apenas pedir, mas também temos que nos doar.

Queremos! Desejamos!

Temos sede de desejo e ele ainda não está saciado e, então, cometemos nosso segundo erro: Procuramos outra fonte para beber.

E como quem domina a arte de se convencer, vamos novamente por esse caminho; desta vez, atafulhado. Crente que não estamos errados.

“Afinal, com o tempo, adquirimos experiência e, a essa altura, já estamos” – dizemos a nós mesmos.

Louco desvairado! Coração bobo, parece sempre bater do lado errado.

Assassino profissional da razão; parece nos embebedar. Ele é o culpado!

É o que vamos, também, tentar nos convencer. Mas, não é.

O coração não é o culpado por nossos erros, porque o desejo não habita na mesma caixa de Pandora, onde ocultamos nossas sensações. O desejo está puramente ligado à nossa mente.

Nós o criamos! Nós o imaginamos!

Nós fizemos dele um monstro que conhece nossas fraquezas, porque dia após dia, sufocamos nossos verdadeiros sentimentos, deixando somente os instintivos desejos à luz.

Nós nos acostumamos com a ideia de que, tudo podemos presumir. O equivocado pensamento que nos paira a convencer que sabemos o que a outra pessoa imagina e, claramente, adivinhar quando ela nos deseja e só a nós no desejará.

Egoísta!

Não vamos aceitar que haja outra pessoa melhor que nós. Tampouco que ambos os lados devem se doar. Somente o lado cuja a fome for mais forte, merece ser alimentado.

Mas quando o desejo é saciado, o ente querido pode ser descartado e, será sempre fácil o fazer, quando nós não formos aqueles que serão lançados fora.

“Um dia da caça; outro do caçador! ” – Diria outro sábio ditado.

Um dia dispensamos e no outro somos dispensados. Afinal, se tratamos as pessoas como fonte para saciar nossos desejos, devemos lembrar que somos igualmente, uma pessoa.

Mas, ainda assim, somos obcecados por nossa sede e, nem cogitamos observá-la. Apenas queremos beber da fonte do prazer e, vamos de novo, atrás de outra explosão de sensações a experimentar.

Nesse caminho, alguns desistem de tomar consciência do que querem e, se permitem para sempre, viver envolvidos por um quente cobertor de mentira.

Se preenchem de afazeres suficientes, para nunca mais ter tempo e precisar ouvir seus sentimentos.

Outros, assim como você que escolheu se atentar a essas palavras, certamente ainda não desistiu e, posso, desde já dizer: Não desista!

A única coisa que você precisa fazer é dar um tempo a você mesmo. E não se preocupe, não estou falando da eternidade, apenas estou dizendo que você precisa se ouvir.

Descubra o que você é, para saber o que melhor te alimenta. Não se pode dar alpiste ao lobo e nem uma ovelha ao pardal. Cada ser, divinamente único, se alimenta daquilo que sua natureza permite.

Se você não saber qual é a tua natureza, não saberá o que te alimenta. Se tu fores lobo e viver de alpistes, morrerá.

Para tanto, para controlar os desejos, imanentes a nós; precisamos conhecer nossa natureza. Nos permitir nos ouvir, nos observar, nos conhecer.

Em seguida, preenchidos de nós mesmos. Podemos dar aquilo que tanto queremos para nós: o amor.

Afinal, ninguém pode dar, aquilo que não tem e, se você quer ser amado, deve ter a consciência de que, quem é amado, também precisa amar.

Essas coisas não são tão misteriosas assim. A maioria destas minhas palavras são clichês. Mas há uma coisa curiosa no desejo: Quando estamos sendo controlados por ele, tendemos a fazer as mesmas coisas sempre e cometer os mesmos erros.

Então, se somos viciados a trilhar os mesmos caminhos, porque não apontar as mesmas placas que sempre estiveram aqui, mas não demos atenção a elas?

Se não lemos a placa “PARE” e, atravessamos o sinal; o erro não está na placa, que imóvel, permanece como um clichê, sempre presente. O erro está em não darmos atenção ao que é simples e sempre presente, como se o que de fato vale, seja algo repentino, emergente… novidadeiro.

As palavras de sempre, servem para o amor de sempre e são elas, que nos ajudarão deixar os desejos rasos e temporais.

Elas sempre estarão aqui. O amor sempre estará aqui. Os desejos e nós, não. Somos limitados pelo tempo devorador. Somos passageiros.

Tal como o desejo, viemos repentinamente para esse mundo e vamos partir dele, tão depressa quanto chegamos.

Somente o amor e os clichês ficarão. Ao que me parece, são coisas eternamente valiosas e que merecem nossa atenção.

Quando você está com sede, o melhor vinho não tem valor. Quando você está morrendo de fome, não escolhe o que comer.

E quando você ama, não pede para ser amado. Porque o amor, diferente do desejo, não é o mais faminto, apenas o saciado.

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